Por que as coisas acontecem?

Parecem existir 3 perspectivas para responder a esta pergunta.

Perspectiva do Mérito – Para quem?

Nessa visão idealista, coisas boas acontecem às pessoas boas. Tudo é uma questão de justiça e esforço. Se a prosperidade é o prêmio dos fortes e justos, o sofrimento é a sobra dos fracos e falhos. Se o desejo não se realiza é porque faltou esforço. Nesse paradigma, o mundo é regido por um juiz ou conjunto de normas. As coisas acontecem numa perspectiva dicotômica de certos e errados, bons e maus, heróis e vilões. Trata-se da perspectiva da moral, da ética, do superego e dos ressentidos. Como todos temos um juiz na cabeça, essa perspectiva é bastante sedutora e está sempre presente na mídia e nos discursos políticos, utilizada como arma de persuasão. A pergunta central dessa visão é “para quem as coisas acontecem”?

Perspectiva da Função – Para quê?

Nessa visão econômica, coisas boas acontecem às pessoas que servem ao outrem. Tudo é uma questão de valor. O mundo devolve para ti o que você entrega para o mundo. Logo, quem prospera são os que geram muitos benefícios aos demais. Quem sofre, sofre por não ter valor ou utilidade para os outros, resultando em autodepreciação. Prosperar torna-se uma questão de capacidade produtiva, esperteza mercadológica e adaptação ao meio. Quem cumpre uma função na sociedade, prospera. Os animais e as plantas têm sua função e utilidade para nós e para a própria natureza. Se não tivessem, não existiriam. Trata-se da perspectiva dos empreendedores, investidores, chefes e estrategistas. Como oferece uma lógica prática e muito fácil de entender, essa perspectiva também é bastante sedutora e comum nos livros de negócios e nas palestras motivacionais. A pergunta central dessa visão é “para que as coisas acontecem”?

Perspectiva da Causalidade

Nessa visão prática, coisas boas e ruins acontecem sem porquê nem para quê, tampouco para quem. As coisas acontecem quando combinam-se as condições para tal. A semente vira árvore quando há terra, luz e água. Ela cresce seguindo sua natureza. Ela morre sem questionar sua condição, sem procurar uma razão e sem ter de cumprir uma função. O homem, dotado de autoconsciência, questiona sua natureza, elabora explicações e deseja o controle do próprio futuro. Não percebe que consciência não é transcendência. A vida é somente uma complexa teia de eventos aleatórios, compondo causas e efeitos. Não há significados, nem objetivos. Assim mesmo, tão simples, óbvio e doloroso que até nos recusamos a entender e aceitar. Trata-se da perspectiva de filósofos, budistas e alguns cientistas.  A pergunta central dessa visão é… Não há pergunta central, apenas entrega ao vazio existencial e ao momento.

Para muitos a causalidade é inaceitável, embora boa parte reconheça sua lógica. Eles preferem viver nos altos e baixos do jogo dualista entre heróis e bandidos, fortes e fracos, justos e injustos, perfeição e imperfeição, vencedores e fracassados, gerados pelas perspectivas meritocratas e funcionalistas.

De certo modo, todos temos e utilizamos essas 3 perspectivas. Também de certo modo, as três são necessárias. Afinal, se ignorarmos uma delas, qualquer explicação fica incompleta.

Publicado por

Daniel R. Bastreghi

O que nos move? Como fazer valer nossos esforços? Como aproveitar o tempo que nos é dado?Na esperança de um dia encontrar respostas convincentes para essas perguntas, eu, Daniel, passeio pelo mundo do marketing, empreendedorismo, psicologia, autoconhecimento e filosofia.Compartilhe suas percepções e ajude a construir o conhecimento.

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