A construção do pensamento independente

Pensar é o que nos torna humanos. É o que faz de nós os únicos capazes de transformar o ambiente. Aos outros seres vivos resta a submissão às condições que se apresentam. Pensar é abstrair, organizar e cruzar diferentes conceitos, criando algo novo, mesmo que esse algo seja apenas uma ideia, mesmo que não se materialize ou que não tenha qualquer ligação com o mundo real. Pensar é transformar.

Ao contrário do que parece, não nascemos dotados da habilidade do pensamento. Quando bebês, apenas repetimos e imitamos. Quem repete ou imita não transforma, logo não está pensando. O que não significa que a mente do bebê não está em uso. Porém, seu uso é parcial, talvez em função da estrutura biológica ainda estar em formação. Contudo, imitação não pode ser confundida pensamento. É importante fazer a distinção entre uma atividade mental qualquer e o pensamento. O primeiro não exige consciência e autonomia, já o segundo sim.

O vídeo abaixo mostra uma bolinha encantadora tentando imitar seu pai, enquanto desenvolve sua inteligência motora:

O processo de imitação contínuo constrói uma enorme memória, que incluem ideias, sentimentos, experiências e inteligência motora. Cada estímulo captado através dos sentidos dá início a um cruzamento de dados gigantesco, complexo e incrivelmente veloz. Então, a resposta ao estímulo deixa de ser uma imitação simples e passa ser imprevisível. Quando crianças, continuamos imitando, porém contando com um enorme repertório de respostas, construído ao longo dos anos, através de interações com pessoas e com a mídia.

No vídeo abaixo vemos crianças sendo entrevistadas. Por traz das respostas, não existe um raciocínio estruturado. Elas, cheias do charme e da graça de sua inocência, simplesmente repetem o que ouviram dos pais, professores, desenhos animados e da mídia. É claro que os assuntos abordados são demasiadamente complexos para o universo infantil. De qualquer forma, a mesma dinâmica pode ser vista em simples brincadeiras na pré-escola.

A mente da criança já é capaz de pensar, porém necessita de estímulos. Se analisarmos, poucas interações dão a oportunidade para a criança buscar respostas mais profundas e complexas, cruzar ideias de sua memória e ter a oportunidade de encontrar algo novo, transformar dados em inteligência e romper o impulso de simplesmente devolver o que já foi previamente vivenciado e aceito pela sociedade. A cobrança por agilidade nas respostas, condiciona a mente ainda em desenvolvimento a responder com a primeira ideia coletada. Os pais pressionados e agitados pela vida moderna, transferem aos filhos a sensação constante de urgência e atraso. Abaixo, disponibilizo um link para um texto maravilhoso, de uma mãe que, ao perceber que sua pressa estava prejudicando, talvez irreversivelmente, a infância de sua filha, promoveu uma mudança radical em sua forma de ver o mundo. Tocante.

Link para artigo: O dia em que parei de mandar minha filha andar logo

As escolas são extremamente deficitárias na tarefa de desenvolver o pensamento, por diversos motivos: professores despreparados e desmotivados; foco na preparação para o mercado de trabalho e vestibular; excesso de alunos na sala de aula; excesso de conteúdo programático; método de ensino defasado; estrutura competitiva e não colaborativa; desprezo pela individualidade do aluno; etc. Definitivamente, o ambiente escolar não é propício para o desenvolvimento do pensamento independente. Qualquer educador sério sabe disso.

Quando adolescentes, continuamos imitando, mas dessa vez incluem-se no repertório de memórias as interações com os amigos e aspectos culturais e sociais. Ainda nessa fase, costuma ocorrer o primeiro estágio da construção do pensamento independente, quando o indivíduo percebe que a forma de pensar de seus familiares é insuficiente para lidar com o contexto de sua vida.

No início da fase adulta, outra etapa da construção do pensamento independente pode surgir, quando o indivíduo percebe que a forma de pensar dos amigos e do grupo de convívio também é insuficiente. Contudo, a tendência a imitar ainda existe. Quando adultos, imitamos celebridades, professores, pessoas de sucesso, ideais ou seguimos cegamente cartilhas de como conseguir as coisas. É assim que se forma a cultura de uma sociedade e os preconceitos, através de memórias acumuladas e não refletidas.

O processo de imitação se mantém ao longo da vida. Trata-se de um método primário de aprendizado, rápido, simples e fácil. A imitação é natural e seria uma tolice negá-la ou julgá-la uma espécie de burrice ou infantilidade. Imitar é tão instintivo quanto respirar, comer, beber, gritar. Por outro lado, pensar poderia ser comparado a andar, correr, ler, escrever, dançar, cantar. São dons naturais que precisam de desenvolvimento.

Em alguns poucos momentos somos capazes de pensar por nós mesmos, de modo independente, e tocar com a mente algo realmente novo. Na maior parte do tempo, apenas devolvemos ao mundo ideias de terceiros, com leves adaptações ao contexto. Como dito, imitar não é pensar. Pensar requer liberdade e autoquestionamento. Liberdade para não se deixar reprimir e permitir que as ideias fluam até os limites da imaginação. Autoquestionamento para transcender os próprios preconceitos e tabus. Portanto, o verdadeiro pensamento só pode ser livre e independente. Este é o pensamento independente. Por outro lado, se a atividade cognitiva estiver condicionada ou limitada por repressões, logo trata-se de uma imitação.

O desenvolvimento do pensamento independente é fundamental para que seja atingido algum nível de satisfação pessoal. Quem não pensa de forma independente, busca a felicidade seguindo fórmulas, receitas aprendidas com familiares, amigos ou a mídia. Torna-se um fantoche, perdido na confusão da vida, entre oportunidades e oportunistas.

Como dito, o verdadeiro pensamento independente é um dom, mas não é natural. Ele precisa ser construído ao longo da vida. Pode-se dividir esse processo em alguns estágios. Cada estágio é subdividido em duas fases: rebeldia e reconciliação.

1. Liberdade da família – questiona-se as ideias dos pais e da família. Geralmente ocorre na adolescência.

2. Liberdade do grupo – questiona-se as ideias dos amigos e pessoas próximas. Geralmente ocorre no início da vida adulta.

3. Liberdade da mídia e instituições – questiona-se as ideias da mídia, dos ídolos e das instituições.

4. Liberdade da cultura – questiona-se os valores culturais, ideologias, religiões, preconceitos e estrutura da sociedade.

5. Liberdade do ego – questiona-se os próprios desejos, hábitos, vícios, sentimentos reprimidos e conflitos internos.

Quando iniciamos o processo de libertação, geralmente surgem comportamentos rebeldes e por consequência, conflitos com familiares, pedidos repentinos de demissão, mudanças de carreira, trocas de cônjuges, distanciamento de amigos, busca por novas religiões, isolamento, mudança de bairro, cidade ou país, etc. A rebeldia gera a separação e dá o espaço para a reflexão onde floresce o pensamento independente. Quando o pensamento independente do estágio em questão amadurece, há a reconciliação. A reconciliação nem sempre se dá nos relacionamentos (com pessoas ou instituições), mas com as ideias superadas pela nova maneira de pensar.

Infelizmente, desenvolvemos apenas parcialmente nosso pensar. Paramos e nos acomodamos em alguma das etapas, por indolência ou apego. Passamos a projetar nossos problemas nos outros, nas instituições, na sociedade, na natureza ou até em uma energia ou entidade mística. Não percebemos que estamos imitando ideias e padrões compulsivamente. Não paramos e refletimos profundamente sobre nossa postura perante a vida, quantas vezes forem necessárias, até nos libertarmos do vício de imitar e percebermos que nenhuma fórmula, costume, cartilha, roteiro, ensinamento, religião ou filosofia será melhor para guiar-nos, do que o pensamento independente. Afinal, a vida é uma experiência sempre única e inédita. Para lidar com ela, nada melhor do que pensar por si mesmo.

“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.” Raul Seixas

Publicado por

Daniel R. Bastreghi

O que nos move? Como fazer valer nossos esforços? Como aproveitar o tempo que nos é dado? Na esperança de um dia encontrar respostas convincentes para essas perguntas, eu, Daniel, passeio pelo mundo do marketing, empreendedorismo, psicologia, autoconhecimento e filosofia. Compartilhe suas percepções e ajude a construir o conhecimento.

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