O medo que nos poupa da morte e nos priva da vida

Imagine uma pessoa que, pela primeira vez, pratica alpinismo. Ela, pendurada no topo de um penhasco, mesmo utilizando-se de todos os equipamentos de segurança, tende a agarrar a corda com máxima força, exigindo muito de seus músculos. Há um grande desequilíbrio e desgaste desnecessário. Depois de alguns minutos, os músculos começam a doer. Ela está cansando. O contato com o próprio limite a obriga a ajustar suas forças. Percebe que está segura e que os equipamentos estão funcionando. Agora ela relaxa as mãos e atinge o equilíbrio. O coração continua a bater forte, mas o medo não a embriaga. Uma espécie de sobre consciência surge e traz a sobriedade necessária para a situação. Ela retoma o controle.

Diversas situações similares (e menos dramáticas) acontecem todos os dias. A corda pode ser um emprego. Também pode ser um relacionamento, autoimagem, religião ou simplesmente uma ideologia. Apegamo-nos a essas coisas como se nossas vidas estivessem por um fio. O medo faz com que nos agarremos a qualquer coisa que possa dar uma sensação de segurança. Vamos ao limite das nossas forças e nos desgastamos. Não percebemos que é impossível ser feliz assim. O medo, sempre presente na forma de preocupações e ansiedade, destrói nossa vivacidade.

Na sociedade atual, temos poucas oportunidades de experimentar o medo da morte. São raríssimas as situações que colocam nossas vidas verdadeiramente em risco.  Contudo, no homem ainda primitivo e travestido de moderno, o sentimento ainda se faz presente. A todo momento o medo da morte se manifesta e agora, não podemos mais justificá-lo. Não há motivos lógicos ou socialmente aceitáveis para senti-lo. Passamos então a negá-lo e reprimi-lo, já que manifestá-lo é algo mal visto por si mesmo e pelos outros. Passamos a associá-lo com eventos que não oferecem reais riscos de morte, mas de morte social ou emocional.

Diariamente, o medo se apresenta através de máscaras: medo de falar em público, medo de altura, medo do escuro, entre tantas outras. Preocupação ou receio são apenas nomes bonitinhos. Medo da morte é a face verdadeira. Os medos vêm de uma antecipação imaginária de eventos catastróficos desencadeados pela possibilidade de fracasso em uma determinada situação. Se analisarmos a fundo e deixarmos o sentimento do medo fluir e manifestar-se em sua integridade, será revelado o verdadeiro e intenso medo da morte. Lá no final da cadeia de eventos catastróficos, muitas vezes de maneira inconsciente, tememos algo irremediável que pensamos não ter forças para encarar. Mesmo os medos mais “bobos” possuem sua raiz na possibilidade de dor e morte.

Todos os medos nascem da dúvida: sou suficientemente capaz de enfrentar a situação? Quando a situação é presente, não há medo. Sentimos medo da simples possibilidade, do futuro imaginado. O medo é a energia liberada com o choque entre a falta de autoconfiança e necessidade de se realizar algo. O atrito entre os impulsos opostos é poderoso. Se ao enfrentar uma plateia, temos uma pequena incerteza quanto a aceitação do público, isso disparará o medo. Se nos propomos a escalar um penhasco, mas temos incertezas quanto às nossas habilidades, teremos medo.

“O medo é uma dor ou agitação produzida pela perspectiva de um mal futuro que seja capaz de produzir morte ou dor”
Aristóteles

O medo é um radar que detecta possibilidades de riscos de morte, vigiando nossas vidas em 360 graus. Ele é tremendamente dramático e catastrófico, enxergando fogo no menor sinal de fumaça. Não há lógica em um sentimento caótico e forte. É impossível compreendê-lo com a cabeça. Quando se sente medo, alguma parte da consciência ou inconsciência vê um risco de morte, como consequência próxima ou distante da situação.

Experimentar verdadeiramente o medo da morte costuma ser uma experiência transformadora. São inúmeros os casos de pessoas que se reconstruíram depois de um acidente ou uma doença grave. Também são inúmeros os casos de pessoas que desenvolveram sérios transtornos psicológicos. Ver a morte de perto é algo que nos obriga a aceitar nossa finitude. Ela escancara a pequenez de nossas vidas e a irrelevância das preocupações diárias.

Mais aterrorizante que a morte, só o medo da morte. “Tomara que eu morra dormindo” é o desejo de alguns. “Que seja rápido e indolor”, outro dizem. Outros preferem não viajar de avião, talvez porque em caso de pane, há alguns longos minutos até a queda, onde pode-se ter de lidar com o horror dos nossos próprios pensamentos e sentimentos frente a morte iminente.

Para alguns, o esforço de negar e reprimir o medo gera uma hipersensibilidade aos seus sintomas. O menor sinal de perigo, mesmo que imaginário, seja físico, emocional ou social, pode desencadear um ciclo vicioso, onde o indivíduo teme não somente a origem do medo, mas o próprio medo em si. Ele sabe que sentir medo compromete sua performance e lucidez, então o medo passa a ser temido, aumentando exponencialmente o sentimento original.

No entanto, viver dentro dos limites impostos pelo medo da morte não é um ato de sabedoria. O medo se manifesta em diferentes níveis. Às vezes, é intenso e dominador, embriagando-nos de tensão. Com maior frequência, ele surge em doses tão sutis, dezenas ou centenas de vezes ao longo do dia, que passa totalmente despercebido. Ele influencia diretamente nossas escolhas, comportamentos e relacionamentos, mantendo-nos em suposta segurança, na famosa zona de conforto. Ao longo dos anos, se não aceito, ele nos intoxica e passa a reger nossas vidas. Aquele que se entrega ao medo torna-se um covarde de vida medíocre. Na perspectiva ocidental, o covarde é um perdedor que deixa de lutar pelo que acredita. Na perspectiva oriental, o covarde deixa de experimentar integralmente as percepções do momento presente, tendendo a isolar-se em um diálogo interno. Ele não goza a vida, pois não vive no aqui e agora, mas em algum lugar do passado ou futuro.

“Os covardes morrem muitas vezes antes de sua morte; os valentes morrem uma única vez.”
William Shakespeare

O covarde, por medo da morte, abdica da própria vida e limita-se a uma escassez de sensações. Pouca dor, pouco prazer. Pouco risco, pouco êxito. Alguns chamam isso de equilíbrio, controle ou segurança. “O seguro morreu de velho”. Não! Isso é fazer da vida um longo e lento suicídio. Não há outra escolha, senão viver o medo e estar sempre de peito aberto para a morte. O prazer da vida não deve ser ofuscado pelo fantasma da morte. Aquele que prefere fugir do risco priva-se dos prazeres, do novo, do aprendizado. Priva-se de estar conectado com o momento e passa a viver em um ciclo vicioso, como alguém que experimenta sempre o mesmo dia.

Desconheço meios para evitar o medo. Aliás, tentar evitá-lo é uma grande tolice. Afinal, ele não é uma entidade separada, mas é parte de nós. O medo é como os braços, mãos e coração. Negá-lo é como amputar seus braços. Reprimi-lo é como amarrar suas mãos. Controlá-lo é como escolher como seu coração deve bater. Nenhum ato de violência e intolerância contra si mesmo pode gerar felicidade. Mesmo para os sentimentos mais incômodos, a única opção é exercitar a aceitação e a compaixão.

Ao longo da vida, desenvolvemos o hábito de negar e reprimir sentimentos e sensações que provocam desconforto, confusão e dor. O contato com a morte, por exemplo, foi suavizado e até extinto. Não matamos para comer. A carne nos é ofertada fatiada, moída e “tingida”, em uma bandeja com um pequeno absorvente que nos polpa do contato com o sangue. Não temos contato com o animal, nem com sua morte. Quando um ente querido morre, dizemos que ele “foi para o céu”, “passou dessa para uma melhor” ou simplesmente faleceu. Fazemos uma última visita em seu velório, somente após a limpeza e maquiagem do corpo e da “decoração” do ambiente.

Não encaramos a morte, senão de forma oblíqua. Encará-la de frente despertaria emoções dolorosas demais. O medo é uma dessas emoções. Cometemos um crime contra nós mesmos quando classificamos tais sentimentos como “negativos” e passamos a evitá-los. Não há como viver sem dor. Não há como fugir da morte. Estamos condenados a experimentar todos os sabores e sensações que a vida trouxer, sejam agradáveis ou não. Ao longo da vida, sentimos dor e, ao evitá-la repetidamente, tornamo-nos covardes. Então, negamos uma parte importante e inseparável da vida. Portanto, evitar a dor é evitar o prazer. Temer a morte é temer a vida.

“Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro, a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz” Platão

Pode-se escolher abraçar o medo e senti-lo de forma plena e intensa. Pode-se aceitar a finitude e flertar com a morte. Pode-se experimentar dor, frio, fome, inveja, raiva com plena consciência de que as sensações são, na grande maioria das vezes, apenas nuvens escuras passando lentamente. Assustadoras, porém vazias.

Publicado por

Daniel R. Bastreghi

O que nos move? Como fazer valer nossos esforços? Como aproveitar o tempo que nos é dado? Na esperança de um dia encontrar respostas convincentes para essas perguntas, eu, Daniel, passeio pelo mundo do marketing, empreendedorismo, psicologia, autoconhecimento e filosofia. Compartilhe suas percepções e ajude a construir o conhecimento.

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