Cuidado com a Startupização

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O sucesso das startups norte americanas tem provocado uma série de questionamentos e mudanças na gestão de empresas de todos os portes e segmentos. Até poucos anos atrás, vídeo games, refrigerantes a vontade e lounges cheios de estilo não faziam o menor sentido para muitas lideranças. Gradativamente esses e outros mimos vão ganhando espaço. Práticas estratégicas e gerenciais elaboradas com base na psicologia comportamental, em detrimento da racionalização e tecnicidade dos processos, também vem sendo apressadamente adotadas.

De fato, mudar é preciso. O modelo tradicional de gestão mostra exaustão, lentidão e pouco engajamento dos funcionários. Com o avanço de valores centrados na qualidade de vida, as pessoas não vestem a camisa de empresa incapazes de respeitá-las, de tratá-las considerando suas necessidades e desejos. Mas será que o modelo apresentado pelas startups cabe em qualquer contexto, para qualquer empresa? Será que estamos de fato aplicando as inovações criadas pelas startups? Ou estamos apenas adicionando purpurina nas velhas engrenagens?

As principais startups norte americanas, com o auxílio de consultores e pesquisadores, desenvolveram uma percepção refinada da psique de seus colaboradores e clientes. Graças a esta percepção, desenvolveram métodos aparentemente simplificados para lidar com a complexidade crescente da tecnologia da informação. Contudo, a aparente simplicidade esconde muitos detalhes sutis que passam despercebidos.

Muitos gestores tentam replicar apressadamente as inovações em seus contextos, às vezes com verbas restritas e pouca disponibilidade de tempo. Iniciar inovações sem ter condições de continuá-las até que se estabilizem pode ser uma atitude no mínimo irresponsável. A prática pode até fazer sentido para uma startup que tem pouco a perder, mas quando já existe uma estrutura funcional, isso pode gerar muitos prejuízos. Recursos valiosos podem ser desperdiçados. Confusão e instabilidade se instalam. Durante qualquer transição, o volume de trabalho aumenta e consequentemente aumentam o estresse e os conflitos. Portanto, um gestor responsável precisa ter uma clara visão de começo, meio e fim de todo o processo de mudança. Deve se certificar de que dispõe de boa parte dos recursos necessários, incluindo seu próprio tempo e know-how. Em toda inovação é natural que exista certa imprevisibilidade, mas ela precisa ser mitigada buscando conhecimento e experiência.

Ambientes descontraídos e opções de lazer durante o expediente também terão pouco efeito se houver uma pressão demasiada por resultados ou se o clima entre as pessoas estiver pesado. Há empresas que mesmo uma pausa para um café ou um telefonema pessoal já acionam olhares e comentários. Nesse contexto ficará evidente a desarmonia, a falta de unidade entre discurso e prática das lideranças. Tal contradição poderá na verdade agravar os problemas iniciais.

A motivação, engajamento e espírito criativo que encantam os participantes nos eventos promotores da inovação e do empreendedorismo são desejados por muitos gestores. Todos querem colaboradores que vistam a camisa da empresa, que se preocupem com as metas, que defendam a marca nas mídias sociais. As startups norte americanas parecem ter conseguido a fórmula para cativar seus colaboradores. Tentamos replicar esse entusiasmo nos discursos, reforçamos as campanhas de endomarketing, criamos frases de efeito. No entanto, se não houver de fato um olhar atento ao colaborador, com respeito e consideração, tudo será questionado com ceticismo. Não adianta copiar e colar os métodos, se não houver sensibilidade e continuidade.

Inovar em uma estrutura já estabelecida é muito mais desafiador do que em uma organização pequena e recém-criada. Portanto, é preciso refletir sobre a aplicabilidade das novas práticas antes de aderir ao modismo. Sem dúvida, elas têm muito a agregar. Mas sua adoção deve ser gradativa, planejada e responsável.

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Daniel R. Bastreghi

O que nos move? Como fazer valer nossos esforços? Como aproveitar o tempo que nos é dado? Na esperança de um dia encontrar respostas convincentes para essas perguntas, eu, Daniel, passeio pelo mundo do marketing, empreendedorismo, psicologia, autoconhecimento e filosofia. Compartilhe suas percepções e ajude a construir o conhecimento.

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